Como comprar software em tempos de IA: repensando preço e valor
A IA não só assiste, ela age, decide e entrega valor, o que transforma fundamentalmente a forma como avaliamos custos, negociamos contratos e medimos o retorno de qualquer investimento em tecnologia
A inteligência artificial (IA) mudou as regras do jogo e tornou a decisão de compra de software ainda mais complexa. Se antes buscávamos ferramentas passivas para aumentar a produtividade do time, hoje podemos adquirir sistemas que executam tarefas e influenciam diretamente indicadores críticos de negócio. A IA não só assiste, ela age, decide e entrega valor, o que transforma fundamentalmente a forma como avaliamos custos, negociamos contratos e medimos o retorno de qualquer investimento em tecnologia.
A confusão na precificação é totalmente compreensível, pois ela é fruto de uma evolução acelerada. Ela se originou no modelo de licença perpétua e alto custo inicial dos anos 90, um ato de extremo compromisso financeiro e operacional. Em seguida, veio o modelo SaaS, que democratizou o acesso, moveu o software de capital spiky para despesa operacional previsível, e se estabeleceu sob um acordo tácito: o fornecedor era responsável pela ferramenta e o cliente, pelo resultado. No entanto, este modelo, que cobra por acesso (seat license ou assinatura mensal), foi desenhado para um mundo de software passivo.
O erro mais grave reside em aplicar essa lógica de 1990 a uma tecnologia de 2030. A IA não é uma planilha mais esperta, mas um analista autônomo, e não é um martelo melhor, mas um carpinteiro. Você não paga um carpinteiro uma taxa mensal por acesso à caixa de ferramentas; paga-se pelo deque finalizado. O software dotado de IA é um produto qualitativamente diferente — você o contrata para alcançar um objetivo, não para simplesmente usá-lo. Contudo, o cliente fica preso, “pagando por atividade enquanto reza por resultados”.
Assinatura: A Armadilha do Acesso
O modelo de assinatura falha porque, por sua natureza, ele precifica o acesso à ferramenta, e não o valor que ela cria. O incentivo econômico de um fornecedor SaaS tradicional é vender mais assentos e evitar o churn. Seu sucesso é medido por adoção e engajamento, mas, como o CFO sabe, “adoção não é um resultado de negócio. Engajamento não é lucro”.
Veja um exemplo prático. Um sistema custa 5 mil reais por mês, mas os resultados que importam de verdade — como quantos clientes continuam comprando (taxa de cancelamento) e a satisfação geral dos clientes — não melhoraram. O vendedor justifica a renovação dizendo que o sistema tem “alto índice de uso”. Mas, na verdade, a empresa está pagando por um “bufê à vontade” de recursos que não dão resultado e incentivam o uso só para parecer produtivo. O software acaba sendo renovado não porque gerou valor, mas porque ficou “grudento demais para cancelar”. Assim, todo o risco fica com quem compra, que paga pela promessa, mas não recebe o valor.
O modelo de assinatura funciona bem para ferramentas passivas que fornecem infraestrutura, como o Microsoft Office, que oferece a bancada de trabalho. O problema surge quando o software se torna um agente ativo, ou seja, quando passa a executar tarefas que influenciam diretamente indicadores do negócio como encontrar leads ou cortar custos de logística. Pagar mensalidade fixa nesse cenário é pagar por promessas, não por entregas concretas.
Pagamento por Uso: A Armadilha do Taxímetro
A tentativa do mercado de resolver o problema do acesso levou à precificação baseada em uso (por API call, por token processado ou por minuto de compute). À primeira vista, parece mais justo, pois o cliente paga pelo que consome. Mas essa aparente justiça esconde uma armadilha perigosa: você está pagando pelo esforço do software, não pelo resultado que ele entrega. É uma solução focada nos inputs (compute, tokens, dados) em vez dos outputs (valor, soluções).
Este é o “problema do taxímetro”: você paga por cada “swing do martelo”, enquanto a casa permanece inacabada. O fornecedor de IA que cobra por tokens tem um incentivo financeiro para maximizar o número de tokens processados. Isso explica por que muitos modelos são verbosos, entregando cinco parágrafos quando cem tokens seriam suficientes. O fornecedor é penalizado por implantar um modelo superior, pois a eficiência reduz a receita.
O cliente assume 100% do risco de performance. Se a IA alucina, se perde em um loop ou produz uma análise inútil, o cliente paga por todo o esforço e ainda fica com o problema por resolver. Este modelo é, em última análise, uma forma de cost-plus pricing disfarçada de inovação, onde o fornecedor arbitragem seu custo de cloud e passa todo o risco de ineficiência diretamente ao cliente. É um pedágio.
Pagamento por Resultado: O Foco no Impacto
A evolução para modelos baseados em resultado não é questão ideológica ou modismo, mas a consequência lógica de contratar sistemas que operam autonomamente e impactam indicadores críticos do negócio. Quando o software de IA executa uma tarefa, o valor não está mais nos tokens processados, mas nas decisões efetivamente executadas. O modelo de precificação precisa refletir essa realidade.
Essa evolução exige uma mudança completa no vocabulário comercial, focando no problema do cliente e no “Jobs-to-be-Done” (Trabalhos a Serem Feitos). O ponto crítico é: sempre que a solução mudar de ferramenta passiva para agente autônomo, o comprador deve trabalhar deliberadamente para que o modelo comercial acompanhe essa mudança.
É essencial definir o sucesso antes da implementação, pois sem linha de base clara documentada, tudo vira opinião. Por exemplo, uma varejista documenta a linha de base de ruptura e estoque excedente e, com a melhoria mensurável desses indicadores, a atribuição de valor se torna direta e objetiva. A estrutura de medição precisa ser simples, objetiva e compartilhada. Além disso, é crucial usar Métricas de Proteção: um sistema que atinge a meta principal, mas degrada a satisfação do cliente ou aumenta o risco, não gerou valor. É preciso combinar o resultado principal com indicadores de proteção (ex: aumentar conversão, mas manter cancelamento controlado).
As Barreiras Organizacionais que Travam a Evolução
A evolução para modelos sofisticados enfrenta resistências legítimas nas organizações. O CFO vive sob pressão da previsibilidade, pois um modelo baseado em resultado, mesmo mais vantajoso, introduz variabilidade orçamentária. A solução passa por estruturas híbridas com tetos de pagamento ou investimentos faseados.
A área de TI enfrenta o medo da perda de controle técnico, já que modelos baseados em resultado exigem integrações profundas. A resposta é construir confiança em etapas: análise histórica, acesso somente leitura e, só então, integrações operacionais.
Já o Usuário Final enfrenta o medo da obsolescência. A adoção só acontece com narrativa clara de evolução, não eliminação, onde a IA libera a equipe para problemas que exigem julgamento humano e construção de lealdade.
Da Negociação à Execução
Na negociação, o foco deve ser o resultado específico. Peça que o fornecedor explique qual responsabilidade concreta assume e como o valor será comprovado. Exija transparência sobre a linha de base (o ponto de partida), as regras de atribuição de resultados (como provar que o software fez a diferença), o registro auditável das ações e as métricas de proteção (indicadores que garantem que o sistema não resolve um problema criando outro). Um bom contrato de software deve descrever o que precisa acontecer no seu negócio para gerar valor, e não apenas o que o sistema faz tecnicamente. O preço, nesse cenário, reflete o impacto real, a distribuição justa do risco e o alinhamento de incentivos.
No entanto, é fundamental entender que nem todo software precisa migrar imediatamente para a precificação baseada em resultado. Ferramentas passivas, que servem apenas como infraestrutura ou facilitam o trabalho humano, podem e devem permanecer em modelos tradicionais como a assinatura. Contudo, quando você está contratando um agente autônomo para executar um trabalho e entregar um resultado concreto (como reduzir custos ou gerar leads), insistir em pagar apenas por acesso ou tokens perpetua um desalinhamento estrutural que prejudica a empresa e distorce o valor da tecnologia.
A direção estratégica precisa ser clara: embora existam limitações (técnicas de mensuração, falta de infraestrutura de dados ou imaturidade do produto) que impedem o salto imediato para modelos de resultado, o objetivo final deve ser sempre esse. Entenda para onde cada solução pode e deve evoluir. Trabalhe de forma deliberada para que o modelo comercial acompanhe a natureza real do que você está contratando. A jornada pode ser gradual, mas a meta é clara desde o início: parar de comprar software e começar a contratar resultados.
Publicado originalmente no Portal Infomoney.
A Comunidade Métricas Digitais está chegando.
Finalmente, quem trabalha com métricas digitais terá um espaço com cursos, mentorias e materiais de alta qualidade.
Guarde este nome. Em breve traremos mais detalhes.



A mudança é muito rápida e exige cuidado. Contratos de longo prazo devem ser evitados, no meu ver. Em alguns meses uma solução que parecia incrível se torna obsoleta por causa de outra solução grátis.
Rodrigo, conteúdo excelente!
Praticamente só vendi software na minha breve jornada profissional.
Inclusive hoje empreendo nessa área (ERPs para MPE varejistas e serviços).
Sei que você falou mais no contexto de quem compra. Mas me trouxe uma pancada boa de insights.
Poucas vezes vi alguém falando com tanta clareza sobre a comercialização de softwares assim.
E num bom momento, acredito eu - com o boom do vibe coding, muita gente vai ter que vender né...
Enfim, valeu e vou te acompanhar mais!